Boa leitura!
Outra Pessoa a Cada Manhã
Qual é o seu maior medo? Morrer? Se morrer é o seu maior medo, de qual jeito você não gostaria de morrer? Assassinado, causas naturais, ou ao acaso.
Mas não sou um “dilacerador de carne humana em excesso”, sou muito mais do que você pode imaginar. E até eu decidir dizer quem eu sou, e o que eu faço para você, nunca encontrei alguém que me fez perder a vontade de sentir meu desejo inconsumável de dor alheia, de destruir qualquer tipo de esperança humana.
Não vou revelar meu nome para você, pois posso ser seu vizinho (a), seu irmão (a), sue colega de trabalho/escola ou até mesmo um dos seus pais – por que pensar que sou um homem? Por ser um assassino? Eu sei que eles são muitos machistas e pensam que mulheres não têm capacidade de causar dor e os piores sentimentos humanos já vistos, mas eles não viram nada. Existo desde o surgimento da humanidade, já vi coisas que não vou entender nunca, vi as melhores coisas que se podem imaginar, quando o terror estava instaurado, nenhuma lágrima caiu, vi que de repente, de “primatas”, vocês evoluíram para algo inacreditável, uma vez que, o fogo e a roda foram grandes invenções há milhares de anos atrás, hoje, estão estudando a possibilidade de voltar no tempo. Se eu tivesse a oportunidade do mesmo, não faria nada diferente, arrependimento não cabe a mim.
Pequeno curto bloco nesse melodrama:
Gosto de falar, falo tanto que não cheguei ao meu ponto principal - ELA.
E ela chegou, e fez minha vida mudar drasticamente, seu nome é KELLY e provavelmente já deve estar me denunciando para a polícia local.
O que mais odeio nisso tudo?
Compaixão
Não posso negar, ela fora a mais perfeita “obra” que havia visto em toda minha significante existência. Seus cabelos castanhos, seus olhos verdes, sua boca rosa, tão rosa, pele tão linda que EU senti que seria um erro explorá-la, uma voz aveludada, seu sorriso demonstrava inocência, e que não vivia no mesmo mundo que você vive, onde há guerras, violência, poluição, ASSASSINATOS A SANGUE FRIO, e outras coisas mais que faz qualquer um ODIAR ESTE PLANETA. Mas eu precisava daquele corpo, daquela garota, mas nunca pensei que eu fosse sucumbir ao sentimento que mais odeio: amor.
Na semana passada, conheci um homem chamado Saulo, 32 anos, futuro promissor no emprego, cheio de sonhos com sua esposa que estava grávida, eu o vi na loja de móveis, comprando um berço para seu filho Daniel e seu rosto expressava tanta felicidade que não sei descrever o quanto seria matar somente ele, eu tinha que conhecer-lo. O primeiro passo era segui-lo, quando o fiz, sua esposa Luciana, abriu a porta para deixar o berço e o feliz pai entrarem, sua casa era humilde, mas promissora, então, esperei até o anoitecer, entrar naquela casa foi uma das coisas mais fáceis que já fiz, (e olha que já fiz muita coisa) o muro tinha mais ou menos um metro, ou até menos, parecia que tinha acabado de ser construído, nenhum cachorro ou vizinho intrometido ficaram no meu caminho, a janela estava totalmente aberta, em função do calor infernal que fazia naquele dia.
Uma breve nota importante:
Quando acho minhas vítimas, (que pode ser em qualquer lugar) eu vejo o que é realmente matar a vítima, destruir o espírito de um homem é realmente o destruir. Egoístas morrem insignificantemente.
O que levar em missões externas?
Qualquer coisa que cause dano à pessoa (as) em questão. Qualquer coisa mesmo. De uma faca até uma bomba atômica.
Trouxe comigo três tipos de facas, para desfiar peixe, cortar mato, e para sobrevivência em todas as circunstâncias, peguei a peixeira, bem afiada e rápida, à medida que fui me aproximando, pensei o que eu faria se eu fosse a vítima, refleti sobre o que geralmente as pessoas dizem, para se por no lugar das pessoas que você causa algum efeito, toda essa baboseira não me faz ter nenhuma consciência do que causo para os outros, consciência e inteligência, tenho, e isso não me falta, mas humanidade? Faça me rir!
Aproximei-me de Luciana e de Daniel, (é um favor que eu lhe faço, não venha para esse mundo podre e sem limites, a dor que sentirá agora, nem se compara ao que você iria sentir se vivesse uma vida inteira na Terra) com minha faca, acertei quatro golpes na barriga de sete meses de Luciana, quando acordou, ela não sabia o que fazer; se gritava de dor, chamava o Saulo ou se iria se preocupar com seu filho. Pensou totalmente diferente, tentou olhar para o meu rosto, mas fui objetivo, fiz o que eu tinha que fazer e fui embora. Ela acordou na quarta facada, o único ponto negativo, aliás, foi dois, o pai não ter acordado a tempo e ver sua cama toda ensanguentada, e eu ter sujado meu casaco.
Quando entrei no carro e saí lentamente para não causar suspeitas, repentinamente, comecei a rir, rir descontroladamente, acho que foi pelo fato de acabar com a felicidade de Saulo e matar o Daniel, e talvez até a Luciana, uma recompensa imensurável.
No dia que conheci Kelly, decidi ir a um lugar diferente, que nunca havia experimentado antes, uma “balada” como dizem, e no caminho, passei por vários lugares, vários lugares em que eu mudei a vida de várias pessoas, inverti a ordem natural das coisas (ou não), causei dor e tristeza para seus entes queridos. Chegando lá, tentei me enturmar, consegui muito rápido, e até achei estranho, como se não fosse eu, aliás, isso acontece várias vezes, eu me adapto como extrema facilidade ao que quero, sei os pontos fracos destas pessoas, sei o que fazem como fazem, e depois esqueço como se nada tivesse acontecido. Convencer Kelly foi muito fácil, disse qualquer besteira e pelo grau de bebidas que ela tinha ingerido, achei que estava tudo nos planos.
Ao chegar em casa, muito bonita por sinal, a convidei para conhecer a minha coleção de alces empalhados, que nem me lembro de ter caçado, e ela se impressionou bastante. A mostrei ao resto da casa, e não me lembro de ter dor nas pernas há tempos, andei tanto por esta casa que nem sei a saída. Kelly vomitou no meu carpete, fiquei irritado, ela quase percebeu a minha verdadeira intenção, pois, disparei:
-Ainda bem que será a última vez que fará isso!
Ela só não desconfiou mais porque não sabia nem o que era esquerda e direita naquele momento...
Vi que existia um porão, e na escada de acesso, vi que meu porte físico tinha mudado drasticamente, da última vez que me vi no espelho, era baixo, meio corcova e faltava o dente canino, agora sou loiro, alto e musculoso, talvez seja por isso que Kelly tenha sido convencida por mim a vir para cá.
No porão, lhe ofereci uma bebida, fácil, aceitou e ao mesmo tempo desmaiou, a peguei e a levei para a mesa mais próxima, e fui procurar minhas facas... Só que eu não as achava de jeito nenhum, talvez eu as tenha jogado em algum mato após matar Luciana e Da.. Danilo? Davi? Deivid...?
O que está acontecendo? Minha cabeça não para de doer, minha pele transpira como um dia no sol e queima como se existisse uma bomba dentro de mim. Estou vendo tudo turvo agora, minhas mãos tremem como um terremoto devastador, tusso como se estivesse prestes a cuspir meu pulmão para fora. Acho que não vou conseguir.
Como posso pensar assim? Nunca deixei de fazer algo que é de minha natureza, como o Leão, rei da floresta, que é de sua natureza ser o grande predador, das abelhas polinizar as plantas...
QUE PORRA ESTÁ ACONTECENDO?
Pode ser tudo, menos o que mais desprezo: amor, compaixão. Não, não, não! Eu sabia, após todos esses milhares de anos com esses animais que não se respeitam, eu sentiria por alguém o mesmo que eles sentem por si mesmos, se eles fossem o que foi planejado para eles serem, eu não existiria, aliás, quem sou eu? O que sou eu?
Tenho medo desta pergunta retórica me mostrar que sou algo cheio de dúvidas, e de perguntas. Se nesta história era para contar quem eu sou, vocês se decepcionarão, pois nem eu sei.
Será que somente Kelly após todos estes anos me fez sentir o desejo de ter sua boca tocando a minha? Dos seus olhos fitando os meus, do seu cabelo fazendo charme para mim? De sua voz fina e melódica dizer: - Eu te amo, _ _ _ _ __.
Eu nem sei o meu nome.
Se ela acordar e sair correndo, não me importa, não quero causar mal a mais ninguém, se antes disse que se pudesse voltar no tempo não faria nada diferente. Enganei-me, eu iria voltar ao momento em que eu surgi (é difícil acreditar que tive pais) e deixar de existir, meu Deus. Com quantas vidas destruí? Com quantas esperanças acabei? me poupe deste sofrimento, as vozes de clemência não param de ecoar em minha cabeça, faça-os parar! Faça-os parar! Eu não quero ter que acordar e entender que tenho que viver mais arrependido do que estou. O que posso fazer? Diz-me! Diz-me! Diga-me agora, que largo tudo e irei fazer. Mostre-me ao menos o que sou. Não vou machucar Kelly!
Tudo ao meu redor é verde, não há vento, nem vozes, meu arrependimento parece inferior comparado ao lugar que estou. Não vejo nada, só sinto, não tem Kelly, Luciana, Daniel, Saulo, e tantos outros. Não sou mais o loiro atlético. Aqui não há espelho, mas eu percebo. Não existe aquele brilho anterior, aquela confiança que exaltava por todos os cantos, só há os meus pensamentos e um pedaço de carne para apenas constar que estou aqui. Uma luz forte ofusca minha visão, acho que tenho que segui-la. Eu queria saber sobre as minhas preces, se por causa delas estou aqui, se fui ofensivo. Eu só queria saber o que eu sou. Dê-me uma dica, só uma. Qualquer que seja a resposta sei que ficarei magoado, o que eu fiz não tem escapatória, vou arcar com as responsabilidades. Aqui estou eu, me entregando, mas antes quero saber o que sou. Por favor!
AGORA TUDO FAZ SENTIDO.
SOU O PIOR DOS SENTIMENTOS HUMANOS, SOU O ÓDIO MISTURADO COM A INVEJA, SOU O PRECONCEITO, SOU A DESCRENÇA, SOU O DESRESPEITO.
APAREÇO NAS HORAS MAIS INGRATAS DE UM HOMEM, QUANDO ELE SÓ QUER A DESTRUÍÇÃO DO SEU SEMELHANTE. FUI O HITLER, FUI OS PIORES GENOCÍDAS DE TODOS OS TEMPOS, FUI O INCÔMODO, FUI A MENTIRA, A ENGANAÇÃO, O SEM CORAÇÃO, O CORRUPTO, A VONTADE DE CAUSAR DOR EM UM IRMÃO QUE NUNCA FEZ MAL ALGUM. POR ISSO SEMPRE MUDAVA DE FORMA, NÃO LEVAVA TANTAS MEMÓRIAS COMIGO. A DOR HUMANA ME FAZ FICAR FELIZ. MAS NESTE EXATO MOMENTO EM QUE ME DESCOBRI, MOSTRO QUE ATÉ UMA DAS PIORES CRIATURAS EXISTENTES PODE AMAR.
Que dor de cabeça! Sou o loiro atlético outra vez, estou no sofá da sala da casa grande. Tem uma carta na mesa do centro:
“Foi mostrado tudo o que fez. Tudo o que você era, você será para sempre marcado por isso, mas agora, seu desejo se concretizou, abra a janela e veja algo sem ter ódio ao que vê, inspire e respire sem se sentir enjoado com o ar que respira, sorria porque está feliz, não para outros fins, sua paz interior irá crescer, sua consciência irá flutuar, aproveite tudo aquilo que você uma vez já trouxe dor, e ao final disso tudo entenda porque as coisas são do jeito que são”.
Meu corpo doí. Estranho. Nunca soube o que foi isso, talvez fosse um dos motivos que me faziam tão feliz. Ver, mas não saber como era, me deixava mais forte do que nunca. Parece que a punição já começou. Apesar de ter lido a carta, minha visão está turva, não consigo discernir o que é real e o que é fantasia, sinto todas as dores que antes desprezava, mas tudo parece ilusório.
Ouço vozes de crianças do outro lado da rua, as folhas secas cruzando minha visão pela janela. Acho tudo isso muito humano, não queria estes sentimentos, não quero mais sofrimento, não quero mais causar terror, não quero que minha felicidade seja a finalização de outro, não quero coisas normais, rotineiras, mas também não quero ser outra pessoa a cada manhã. Ter o sangue como segunda pele.
Meu telefone toca, é Kelly, não sei por que e nem como ela arranjou meu número, mas para falar a verdade, toda esta situação é estranha.
-Alô?
-Alô, Carlo? Sou eu Kelly
Carlo. Este é o meu nome. De tantos que havia imaginado, este era um que não passava pela minha mente. Mas este é o nome do loiro atlético. Não importa. Ficarei com este, gostei do nome.
-Oi Kelly, como você está?
-Bem, não como eu gostaria, mas eu não te entreguei para a polícia. Eu quero te conhecer melhor.
Como assim ela quer me conhecer? Ela quer se encontrar com o cara que quase a matou? Estou muito indeciso. O que ela quer de mim?
-Por quê?
-Eu sei que não para por aqui. Ao acordar, vi algo inexplicável. Encontre-me às 7h no centro da cidade, perto do marco zero.
-Tudo bem.
Eu não fazia a menor ideia de como ir ao centro da cidade, mas tinha que dar um jeito. Eu precisava saber do que se tratava.
Como tive medo de me misturar com as pessoas no ônibus, ou perguntando na rua, fui a pé, seguindo orientações da placa. Há uma praça ao lado deste marco zero, fiquei lá, não olhava para ninguém, fixei meu olhar para o chão. Tinha medo de que tudo isso fosse temporário, que meu “talento nato” voltasse com tudo, que eu estivesse sonhando, que eu estivesse no inferno e fosse tudo uma mentira só para me fazer sofrer mais. Fazia muito frio. Eu podia ouvir os velhos conversando, sorrindo, os mais jovens cantando, os beijos de casais apaixonados ao meu lado, crianças fazendo escândalo só para chamar atenção, quando uma mão se apoia em meu ombro:
-Demorei muito?
E lá estava ela, já era quase noite, apesar do frio, dava para ver o sol se pondo, tudo ao redor alaranjado, o vento fazendo seus cabelos ficar em frente ao seu rosto. Eu aceitaria o meu lado humano vendo aquele momento, já que a morte não significa nada mais para mim.
-Não, foi até rápido, acabei de chegar. – Foi a primeira vez que falei com alguém sem querer o fim dela. Gaguejei tanto, que fechei os olhos e imaginei ser uma miragem. Não era.
-Ótimo, vamos conversar.
Na caminhada até um lugar de preferência de Kelly, notei que ela tinha um aroma todo especial, que me prendeu a ela durante todo o caminho, se antes me enojava o cheiro dos “primatas”, hoje, fico fascinado com tanta simplicidade destes seres que antes para mim eram incompreensíveis. Hoje, sinto uma alegria ao ver uma paisagem exuberante, eu nunca dei tanto adjetivos positivos a alguma coisa, acho que nunca havia dado adjetivos positivos a nada.
Kelly sente frio, ela pede o meu casaco. Nunca me pediram nada além de misericórdia, ela estava me pedindo algo, mas era diferente, ela estava pedindo algo sem ter medo, sem condição extrema. Ela só queria meu casaco. Eu a entreguei, já que nunca senti frio, mas como tenho “coisas humanas” em mim, eu posso até sentir minha pele esfriando. Mas não importa. Eu quero o melhor para alguém que eu já quis o mal, é o começo da minha redenção.
- Vamos entrar nesse restaurante. Eu o adoro!
Não sinto fome, estou tão nervoso, que parece que não sinto meus pés andando, meus ouvidos escutando, meus olhos piscando, parece que estou desconectado das coisas. Concordo automaticamente, já estou me adaptando aos costumes gerais.
-Carlo, você deve estar se perguntando o motivo da minha ligação e do meu encontro com você. Vou logo te dizendo, não existe um motivo claro, eu só acordei nesta manhã e senti que você precisava de mim. Como se algo tivesse me dito que você estava perdido e eu fosse seu guia para você se encontrar. Então decidi te procurar, e vejo que a minha intuição não estava errada. Você parece desorientado, sem rumo, se sentindo um inútil. Eu não sei como irei te ajudar, mas aceite minha ajuda, e tudo irá se resolver. Eu sei que tudo vai se resolver.
Meu mundo desabou, ela disse tudo o que eu precisava ouvir. Eu não consigo entender ao certo minha situação, mas vejo muita verdade no que ela diz. Eu não sei se devo ao acordar, perceber os hábitos das pessoas para me adaptar rapidamente, ou fazer tudo do meu jeito. Errando, tropeçando, aprendendo. Como se eu fosse uma criança, mas já adulta, não tendo espaço para erros pela visão dos humanos.
-Assim como você, eu me sinto destroçada também! Para você ver o grau da situação, você tentou me matar ontem! E no dia seguinte, estou falando com você! Se fosse por mim, eu deixaria você arder no inferno, pessoas como você não merecem perdão. Mas alguma coisa segurou minha alma naquela noite, e decidi te ver.
O que ela quer comigo? O que segurou a alma dela? Tenho medo de perguntar, tenho medo de falar, minhas mãos estão tão trêmulas que nem consigo pegar a xícara de café. Vamos lá, já fiz coisas inimagináveis, perguntar algo simples assim não será problema.
-Você realmente quer me ajudar?
-Estou aqui, não estou?
-Mas você mesma disse que não gostaria de estar!
-E, porque será? AH, ME LEMBREI, VOCÊ TENTOU ME MATAR!
-Então, porque está aqui?
-Porque Deus me falou para estar aqui!
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